Decifra-me ou devoro-te!
Me embebeci. De cólera, há menos de cinco minutos atrás, agora a calmaria. Quantas vezes morrerei para renascer de novo? "É preciso morrer às vezes" - lembra-me o espectro. Ou decifro-me ou devoro-me. E o que dirá dos demais? E não sou decifrável, o que me impulsiona ainda não existe. Estou aqui como a própria esfinge, desafiante, com ares de superioridade fingida. E não me movo. Olhar fulminante sobre o horizonte insondável. Tenho algo a fazer e tento me concentrar em meio ao turbilhão, é importante estar centrada, tentar manter o rumo. Me chamaram e fico sem saber como chegar - o espectro novamente. Dissimulo minha insegurança.Ás vezes meu caminho beira ao abismo da indiferença. E estou sempre mudando, como quem tenta encaixar-se na vida, a fôrma não foi feita sob medida. E percebo olhares, gestos que não são mais familiares. Existem distâncias que se abrem a meus pés, e como fico alheia a mim, nem sempre noto a mudança; o espelhos ao redor me abalam com a imagem que não identificava - "sou eu, assim embaçada, fugidia? É eu?" E percebo pelos outros, separados de mim, a inconstância. Me escapo como água pelas fendas da mão. Intocável como fogo ameaçando queimar o tato. Há dois extremos antagônicos, eu no meio. Posso ser de neblina ou fumaça.Na sabedoria chinesa, os extremos se complementam e se anulam - assim é tecido o equilíbrio do universo. Na minha sabedoria (vã), não me completo. Não me anulo. Não me decifro. E a esfinge me devora... - que equilíbrio é tecido em mim?
Mais tarde...
Acho que queria sumir. Apenas acho, porque a própria certeza me parece incerta. Leio meu último post, escrito pela "poetisa", mais inundada de lirismo impossível. Não sou o lirismo, hoje. Sou talvez uma ironia fina, querendo tecer sátira (mordaz?)...e daí? Estou tentando distingüir o que me faz escrever isso agora. "Tenho um blog"..."tenho que escrever coisas"..e sem paciência, vou me perdendo no meio das palavras, é isto: estou diluída na sensação de incerteza. Na vontade de evasão. Andei lendo Clarice e seus espectros, descubro que ela me desconcerta, me arromba. Encontro muito de mim, e gosto, dada minha natureza semi-egocêntrica. Estou no escuro com essas letras azuis, milhões de coisas reclamando minha atenção e só consigo olhar agora para o meu caro umbigo, num movimento de introspecção. Percebo que também não sou ironia. Não, estou cansada para deixar palavras fluírem - as preocupações. Deixo estar, esse mal estar..temporariamente, limito nessas linhas a vastidão do pensamento contido - ou melhor, interrompido.
Impulso azul
Apenas mais um espaço. De idéias, uma imagem e mil palavras. Para que seja uma cascata num jardim antigo, perdido no tempo - espaço sagrado em que vive minha alma. E serão turvas, as palavras vindas da água, entre o limo de pedras frias e a ramagem fresca. E serão obscuros, os pensamentos perdidos, arrebanhados no refluxo de ondas invisíveis, tênues na superfície. E serão fingindas, toda as materialidades que emergem - bolhas de ar comprimidas na inquietude úmida da correnteza, contínua, num movimento transparente de um pequeno mundo inundado. E serão lentos os movimentos na dança das algas, descortinando a profundidade negra. Só não saberão do segredo - pele azul do lago feita de vitrais que só fazem refletir a luz dos astros indiferentes, inalcançáveis na escuridão.