Monday, October 02, 2006

Pensamentos no país da noite

"Na barca, o vulto me alcança com seu eco:
- Bem vinda ao país da noite!
-Bem vinda como, se nunca saí dele?"
Estou terminando um livro sobre a ocidentalização do mundo, resolvi escrever porque me descubro em alguma parte do país noturno. O lugar mítico onde a coruja de Minerva desperta, e surge a filosofia depois do caminho do sol. E que filosofia! Sou parte de um Ocidente que se encontra em qualquer lugar, tudo prima pela repetição, mesmo que grotesca...E lembro-me de uma civilização ensimesmada, somos seres patológicos. Quando é que o individualismo virou lei? Universalismo e individualismo são contraditórios – a única universalidade que ele propõe é a dos cemitérios. Com efeito, pautamos na contradição. As promessas do progresso num mundo em que se universaliza a falta de sentido – o que fazer, o que ter, em que acreditar? – a sociedade do vazio. Valores universais somente para os dignos, conquistadores do mundo comercial e o que faremos com os vencidos? Ou poderia dizer "incluídos"? "Amontoados" é o melhor termo, entre as pilhas de sucata, é desejável que entendam que não são diferentes da sucata. Reduzidos à condição de resíduos, devíamos saber do jogo poder/controle do sentido. Devíamos saber que o mundo é interpretado.
E não era esse o assunto, mas noto que tudo está insidiosamente ligado. E percebo essa protuberância, planta viscosa, corroída pela revolta, num arbusto de ódio, friamente brotado. Tomo largos goles de café, enquanto o pensamento inquieto e tenso, escapa- as relações de exploração nunca são discutidas. Obediência cega, automática, funcionários perfeitos, nenhuma falta, férias vencidas. Paciência vencida, na beira do abismo ainda exige-se compostura – vai pular sim senhora e sem fazer papel miserável, ouviu? – a corporação não vê com bons olhos qualquer manifestação de autonomia. Ninguém é insubstituível.
E volto ao círculo do vazio, nesse entremeio. Quero ter uma identidade que não seja esquizofrênica. E me sinto mal, porque a proteção virou asfixia. Os abrigos não possuem mais o fascínio de antes, ou eu que já não me fascino? Mas quero pensar no binômio identidade/individualismo. Sussurro de um artigo sobre identidade:

"Identidad significa que uno es (o debe ser) similar a lo otro para ser, para existir. Y este es el gran error o delirio que Occidente vive: hacer literal la metáfora ‘identidad’ da como resultado la intransigencia hacia aquello que no es uno, que es diferente. Se provoca una trasgresión de la propia condición humana, donde para ser uno no hay que ser idéntico o similar al otro. En el caso de occidente concretamente el otro tiene que ser igual a nosotros. La identidad en occidente es una forma de canibalismo." (Para ler http://observaciones.sitesled.com/identidad.html)
Precisamos de espelhos de alteridade para existir - em troca da aniquilação do outro. Através da nostalgia da identidade perdida, é nossa imagem refletida o que buscamos. Somente no reconhecimento do idêntico, a identidade será completa. Mas que escuridão é essa? É assim no país da noite. Só as corujas têm visão noturna - e os demais seres? Esperam raiar o dia...
São abstrações, eu sei. E é a forma que encontro para tentar medir a dimensão da coisa. Das longas raízes profundas e seculares, silenciosas, ramificadas, lânguidas, proibidas, venenosas...E peço perdão pela obscuridade, sei que muitos não entenderão que falo do país da noite, onde todas as coisas são obscuras, incertas. E podem até pensar que não somos conterrâneos e que sou apenas "uma estranha sem pátria!"
Enquanto isso, o pássaro de Minerva alça vôo - é à noite que todos dormem e com isso perdem o melhor do espetáculo!
Lanço o pensamento sobre as águas escuras e me parece que o fundo continua intocado. Preciso mergulhar mais até onde a pressão da água me permitir. Bolhas de ar na superfície. Afogo o grito de revolta - é somente um pedaço de papel que amasso no bolso do casaco.

Wednesday, September 20, 2006

Decifra-me ou devoro-te!

Me embebeci. De cólera, há menos de cinco minutos atrás, agora a calmaria. Quantas vezes morrerei para renascer de novo? "É preciso morrer às vezes" - lembra-me o espectro. Ou decifro-me ou devoro-me. E o que dirá dos demais? E não sou decifrável, o que me impulsiona ainda não existe. Estou aqui como a própria esfinge, desafiante, com ares de superioridade fingida. E não me movo. Olhar fulminante sobre o horizonte insondável. Tenho algo a fazer e tento me concentrar em meio ao turbilhão, é importante estar centrada, tentar manter o rumo. Me chamaram e fico sem saber como chegar - o espectro novamente. Dissimulo minha insegurança.
Ás vezes meu caminho beira ao abismo da indiferença. E estou sempre mudando, como quem tenta encaixar-se na vida, a fôrma não foi feita sob medida. E percebo olhares, gestos que não são mais familiares. Existem distâncias que se abrem a meus pés, e como fico alheia a mim, nem sempre noto a mudança; o espelhos ao redor me abalam com a imagem que não identificava - "sou eu, assim embaçada, fugidia? É eu?" E percebo pelos outros, separados de mim, a inconstância. Me escapo como água pelas fendas da mão. Intocável como fogo ameaçando queimar o tato. Há dois extremos antagônicos, eu no meio. Posso ser de neblina ou fumaça.
Na sabedoria chinesa, os extremos se complementam e se anulam - assim é tecido o equilíbrio do universo. Na minha sabedoria (vã), não me completo. Não me anulo. Não me decifro. E a esfinge me devora... - que equilíbrio é tecido em mim?

Mais tarde...

Acho que queria sumir. Apenas acho, porque a própria certeza me parece incerta. Leio meu último post, escrito pela "poetisa", mais inundada de lirismo impossível. Não sou o lirismo, hoje. Sou talvez uma ironia fina, querendo tecer sátira (mordaz?)...e daí? Estou tentando distingüir o que me faz escrever isso agora. "Tenho um blog"..."tenho que escrever coisas"..e sem paciência, vou me perdendo no meio das palavras, é isto: estou diluída na sensação de incerteza. Na vontade de evasão. Andei lendo Clarice e seus espectros, descubro que ela me desconcerta, me arromba. Encontro muito de mim, e gosto, dada minha natureza semi-egocêntrica. Estou no escuro com essas letras azuis, milhões de coisas reclamando minha atenção e só consigo olhar agora para o meu caro umbigo, num movimento de introspecção. Percebo que também não sou ironia. Não, estou cansada para deixar palavras fluírem - as preocupações. Deixo estar, esse mal estar..temporariamente, limito nessas linhas a vastidão do pensamento contido - ou melhor, interrompido.

Tuesday, September 19, 2006

Impulso azul

Apenas mais um espaço. De idéias, uma imagem e mil palavras. Para que seja uma cascata num jardim antigo, perdido no tempo - espaço sagrado em que vive minha alma. E serão turvas, as palavras vindas da água, entre o limo de pedras frias e a ramagem fresca. E serão obscuros, os pensamentos perdidos, arrebanhados no refluxo de ondas invisíveis, tênues na superfície. E serão fingindas, toda as materialidades que emergem - bolhas de ar comprimidas na inquietude úmida da correnteza, contínua, num movimento transparente de um pequeno mundo inundado. E serão lentos os movimentos na dança das algas, descortinando a profundidade negra.
Só não saberão do segredo - pele azul do lago feita de vitrais que só fazem refletir a luz dos astros indiferentes, inalcançáveis na escuridão.